O Fileteado, a arte folclórica de Buenos Aires que conquistou o mundo

Com seus delicados traços e acabamentos florais, este Patrimônio da Humanidade demonstra a típica arte portenha.

O grande escritor Jorge Luis Borges disse que acreditava que Buenos Aires era, “tão eterna quanto a água e o ar”. Esta perpetuidade pode ser encontrada em tradições e artes que parecem ter existido tanto tempo quanto a própria cidade, na qual continua a prosperar. Uma tradição que captura a qualidade imortal e especial das ruas da cidade e dos bairros é o próprio vernáculo decorativo de arte e tipografia de Buenos Aires: o fileteado ou o filete.

Uma tradição reinventada

Com o mesmo contexto social e original do tango – os bairros das classes trabalhadoras do século XIX, as carroças e mercados, os imigrantes e expressões populares de orgulho local em uma capital que estava rapidamente crescendo de um vilarejo para uma cidade, o fileteado, com suas cores vibrantes e florais aparecem, despertando uma nostalgia para o passado de Buenos Aires. Ainda, como o tango, é algo que continua a se desenvolver e se mantém mais relevante do que nunca nesta cidade ferozmente criativa, onde tradições evoluem, mas nunca morrem. Agora artistas jovens, designers gráficos, pintores de placas e até mesmo tatuadores estão procurando no filete um sinal de identidade e um recurso de inspiração. Ao redescobrir e adaptar a sua forma para tipos diferentes de mídia, tais como tênis esportivos até ao corpo humano e ganhando fama fora do país.

Gustavo Ferrari, de 35 anos é um deles. Enquanto ele mantém o seu quiosque regular na feira de antiguidade de domingo da Defensa 500 na histórica San Telmo, este fileteador, nome dado a esses artistas, agora dá workshops ao redor do mundo e tem alunos que vem de todos os lugares para estudar com ele em Buenos Aires. Ferrari cria peças tradicionais, mas também tenta quebrar a norma, às vezes transformando as cores vivas com designs em preto e branco, introduzindo personagens e outros temas florais. “Os tangos dos anos 30 e 40 falavam da cidade daquele momento,” diz Ferrari, “mas as orquestras de hoje têm que falar sobre a cidade de agora e o mesmo acontece com o filete”.

Ele começou a dedicar-se a arte com 18 anos, em parte como uma forma de relaxar e escapar dos livros, enquanto estava estudando história na universidade, e parcialmente por causa de boas memórias que tinha da vizinhança onde cresceu. “Nos anos 80, o fileteado seguia sendo algo comum; muito popular e colorido. Foi um tempo difícil, os professores antigos começaram a morrer, mas uma das minhas primeiras memórias visuais de pequeno crescendo na zona do Abasto era o mural de Untroib de Gardel na estação Carlos Gardel da linha B, que ainda se pode ver”. Afirma Ferrari, “Foi algo incrível que me chamou a atenção pelas formas e cores”.

Como sinônimo de identidade portenha

Como um ex-aluno de história, Ferrari está muito apto para explicar a história do filete e sua relação íntima com a identidade visual da cidade. Enquanto indícios iniciais são escassos por causa de sua origem humilde, a forma de arte parece ter sido desenvolvida nesta cidade-porto por imigrantes italianos no final do século XIX para decorar carroças de madeira. Primeiro com decorações simples e depois incorporando monogramas usando as iniciais dos nomes dos donos. Fileteadores, então começaram a se inspirar pelos prédios que estavam sendo construídos na cidade que estava rapidamente crescendo – lugares como o extravagante Teatro Cervantes – e o estilo desenvolveu seu próprio vocabulário visual com pássaros, dragões, flores de acantos, regras sobre o tamanho e balanço dos diferentes elementos e suas próprias técnicas, como o uso do yapan – verniz transparente que cria volume enquanto deixa as cores passarem.

A tradição se expandiu para caminhões e ônibus públicos – os famosos coletivos da cidade – nos anos 1920 e 30, dando um toque para a época: donos de caminhões competiam pela decoração mais extravagante, na qual começou a incluir nomes e textos maiores. “O caminhão era uma ferramenta de trabalho, mas também era onde o dono se expressava e mostrava o seu orgulho pelo o que havia conquistado. Quando os artistas o iam entregar, passeavam com o caminhão por todo o mercado para que todos os vendedores o vissem e depois o entregavam ao dono. Depois disso, no dia seguinte vinham outros vendedores e diziam, ‘você viu o caminhão que fez para fulano, então me faça outro muito melhor”.  

É uma arte que leva bastante habilidade e dedicação. Pincéis especiais de 4 – 4.5 cm feitos do cabelo das orelhas de vacas permitem formar curvas longas e continuadas sem parar para pegar mais tinta. O artista segura o pincel com três dedos, usando o dedo mínimo para dar suporte ao peso e ser o pivô da mão.

“Quando começa a realmente fazê-lo, você começa a perceber toda a complexidade e quantidade de tempo, trabalho e prática que precisa ter para fazê-lo bem, ir descobrindo isto é fascinante,” expressa Ferrari, “dificilmente há alguém que acordou um dia e teve a genialidade de fazer o filete perfeito. Envolve prática, trabalho diário e estar o tempo todo sentado desenhando e pintando”.

O ressurgimento nos anos recentes inicialmente veio com a explosão do turismo de tango, com empresas procurando se identificar com o “tradicional”. Porém, agora o estilo é mais visto como uma linguagem para expressar a identidade da cidade e do portenho autêntico – uma associação que continua a crescer desde que a UNESCO declarou o filete como parte do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2015.

“Houve um retorno em geral a revalorização do trabalho manual e produtos feitos à mão,” afirma Ferrari. “Sempre em lugares como La Boca, San Telmo ou Abasto haverá mais filetes, mas está se expandido. Todo mundo o está conhecendo e o reconhecendo como arte, não somente como algo comercial”.

E se nós nos pintarmos?

Um grande desenvolvimento foi o pulo que a arte deu de veículos móveis para corpos móveis. Fileteadores estão aumentando os seus desenhos de tatuagens, e cada vez mais tatuadores estão aprendendo a “filetear”. Gustavo Ferrari já desenhou tatuagens para visitantes de todas as partes do mundo. Ele se lembra de um turista alemão que queria a palavra, “tango” tatuada em seu braço, para que pudesse ser lida quando ele abraçasse a sua parceira na pista de dança.

Entretanto, o pioneiro desta tendência foi Claudio Momenti, da Lucky Seven Studio da Galeria Bond Street em Recoleta. Momenti é um tatuador “bandido” autodidata que estava procurando sua própria identidade, “um tatuador japonês usa animais mitológicos e imagens dos anos 1600, então eu busco a história nativa para competir com isso”.

“Tem uma cultura muito portenha, mas é um estilo de ornamentação e você pode procurar a sua volta para fazer algo seu – seu clube, sua família, seu bairro, você pode por o que quiser e usar os ícones que tem, pode envolver diversas coisas”. Afirma ele.

Foi difícil para começar. Momenti teve que procurar uma maneira de incorporar as linhas necessárias para desenhar com tinta na pele e ir adaptando a forma de articulação e o movimento do corpo. Ninguém foi muito prestativo em ajudá-lo de antemão. “Os poucos professores que tinha, eram na sua maioria muito fechados. Não queriam ensinar, nem ajudar nem nada. Faziam as coisas escondidas. Havia coisas que não nos deixavam ver como faziam, como um segredo. Ao mesmo tempo os outros tatuadores riam de mim”.

Tatuar em geral explodiu em popularidade em Buenos Aires, graças a Maradona e outros jogadores de futebol tatuados. Momenti agora atrai atenção nas convenções internacionais, onde o fileteado foi reconhecido como um estilo da categoria. O homem que ele finalmente encontrou para ensiná-lo é um dos artistas que mais tem consciência da adaptabilidade e potencial da tradição folclórica, que se tornou famoso na Europa também, precisamente por seus desenhos de tatuagens.

Da Argentina para o mundo

Alfredo Genovese aprendeu do então mestre León Untroib (1911-1994) e Ricardo Gomez (1926-2011). Ele afirma que começou simplesmente porque “era algo rico e complicado que ninguém mais estava interessado em fazer naquela época e, também tinha muito potencial de ser atualizado”. E ele realmente atualizou criando tudo, desde edições limitadas de tênis para a Nike, garrafas para a Coca-Cola e Evian e até uma variedade de potes. Em seu trabalho mais pessoal, ele é buscado para quebrar a tradição usando diferentes cores ao apropriar imagens tradicionais para contar estórias diferentes, para comentar sobre a cultura argentina contemporânea ou para destacar questões tais como a corrupção política.

“Eu sei que se pode notar que está feito a mão ainda e, talvez por isso, traz muito uma nostalgia, mas para mim é algo que se atualizou e que está totalmente em vigência”.

Ter estudado na Escola de Belas Artes de Buenos Aires na década de 1980, ele começou a trabalhar com tipografia, então viajou ao mundo todo para ver se havia algo parecido com o filete. A sua conclusão? Não há nada igual ao mesmo. “Encontrei alguns parecidos. Na Inglaterra os carros ciganos, em Tibete e Paquistão, mas não é igual. O fileteado nasceu aqui em Buenos Aires. As cores vivas e o falso volume – há várias características que são próprias do filete e que não há em nenhuma outra arte decorativa”.

Ter levado o fileteado para todos os meios, um se pergunta se ele ainda tem alguma outra ambição. “Agora eu gostaria de fazer um avião por exemplo. Seria muito bom ‘fileteá-lo’ e seria algo que atravessaria todos os lados como uma obra de arte itinerante de longo alcance”. Certamente seguiria a bela tradição de usar o filete para decorar veículos e estender a trajetória internacional que só vem crescendo. Nós passaremos a sugestão para as Aerolinhas Argentinas!